FEMINICÍDIO

tristeza

Primeiro cortam a sua língua, depois deturpam sua visão.

Fazem-lhe envergonhar do seu corpo e prendem seus passos em rasos espaços entre o quarto e cozinha.

Gritam para que ouça a voz da razão.

E o som grave faz-te esquecer a melodia das manhãs femininas quando as borboletas dançavam dentro do peito.

Então arrastará, pesadamente e sem jeito, as horas compridas

marcadas em compassos.

Passará a ter medo de vozes e passos.

Sem o sol  a aquecer-lhe o rosto, vela sem luz é colocada em caixa fechada

Embolorada.

E assim, semi-viva, você vai chorar, debater, sangrar…

Dirão-lhe que é natural  o seu sofrer.

Converterá seus dias em pesadelos e com receio de vê-los no espelho, esconderá de si mesma.

A pouca idade é disfarçada  pelas marcas da desilusão

que imprime na pele cicatrizes amargas

salgadas

desbotadas.

Corpo sem alma,  pulsar sem coração.

Livro que não se lê.

Cambaleia luz amarela, nos olhos que nada vê.

As sombras dançantes projetadas no sonhar

tentam, em vão, lhe acordar.

Em busca do que ficou perdido no tempo, abraçará  vento

e dormirá, emfim,  um sono de lua mergulhada no mar.

Corpo lavado em água salgada…

Noite sem fim!

(Aparecida Dias)

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