Contos literários

CONTO 1

 

A doida

Aparecida Dias de Oliveira Torres

 

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Gerusa se mantém imóvel e na posição de um feto no ventre da mãe. O travesseiro já está molhado, mas é assim que ela se sente protegida. Envolta nos lenções, inclusive com a cabeça coberta, morde o tecido para abafar qualquer som. Na outra ponta da cama, “ele” já dorme. Cumpriu sua missão: copulou.

Arrastando os tecidos brancos em que se envolve, Gerusa sai mansamente para se libertar da dor que brota dos poros de sua pele. Deixa o chuveiro quente levar com a espuma toda a impureza pelo ralo. Mas a dor não vai. As lágrimas continuam. Por mais de sessenta minutos, Gerusa luta contra os fantasmas que caminham pelo seu corpo. Cobre-se com um roupão branco, junta os cabelos molhados num coque e decide fazer um café. A água no bule parece não ter pressa de entrar em ebulição e Gerusa recosta na cadeira, molhando com suas lágrimas a tolha de mesa. “É preciso comprar pão…”

Pela rua vai um corpo cambaleante. Os chinelos arrastam num ritmo crescente a cada passo que avança. A padaria fica muito perto de casa e ela não quer voltar agora.   A brisa da manhã a tocar seu rosto é tão suave que Gerusa deseja caminhar mais. E é assim que a doida seminua atravessa a avenida deixando para trás o pesadelo. Uma sensação de liberdade toma conta da mulher de roupão, que se apaixona pela distância que vai se abrindo a cada curva de estrada. O vento nos cabelos, os primeiros raios de sol, a velocidade dos automóveis…

Livre!

Um quilômetro, dois… cinco… dez… quinze. A doida caminha sem parar. Não se cansa nem tem vontade de comer. Está saciada pela liberdade. É tão bom caminhar! E a doida caminha. A doida dança também. Samba sob uma chuva que lava a poeira dos seus pés e dos seus olhos.

– “O meu coração hoje tem paz / Decepção ficou pra trás…”

Dança a doida no meio da rodovia. Gira. Solta os cabelos e volta a girar. Abraça a chuva que escorre pelo corpo e sorri. Esse ritual de amor com a chuva não dura muito tempo, porque chuva de verão passa como visita de beija-flor, deixando o sol no mesmo lugar. E a doida observa a paisagem lavada: o céu tão azul, a mata brilhante, a cachoeira… Um cenário familiar. Então a doida senta, a buscar detalhes nesta cena que a alegra. Ela vê crianças brincando. As gargalhadas invadem seu coração. Ela deita ao chão com o olhar parado num tempo escondido.

Um homem de olhar e voz firme,  põe ordem numa casa bem numerosa de filhos. Os afazeres são muitos e não há tempo para brincadeiras. Em meio às tarefas da casa, as gargalhadas infantis misturam os mundos do adulto e da criança numa cena que não define bem se estão brincando ou trabalhando. Banho de cachoeira, colheita na lavoura, procura a um bezerro perdido… Trabalho, trabalho… Risos. Uma adolescência que veio no intervalo desse brincar de gente grande e um amor, que não pode ser revelado nos olhos de menina moça, também brinca de fantasia.

A doida tem pena da adolescente. Quer correr e gritar, mas as árvores começam a girar. Os automóveis roncam forte, buzinas estilhaçam os ouvidos humanos e não humanos. Monstros-máquinas barulhentas voam em torno da doida. Ventos arrancam a doida do chão e ela se choca contra as geringonças.

Outras gargalhadas… Muitas. Deboches. Riem da doida descabelada e quase sem roupa. Uma mão a arranca do redemoinho, enfiando-a dentro da máquina fria. A doida chora e se encolhe feito um feto pedindo proteção e ela não vê mais nada. Uma escura sombra encobre tudo.

Silêncio…

Um longo e frio vento percorre o corpo da doida. Devagar ela abre os olhos e vê um sorriso que conheceu em outros tempos. A mesma meiguice. O coração adolesceu ao reconhecer o olhar preocupado:

– Está melhor?

– Sim. Estou bem. Acho que desmaiei.

– Você estava inconsciente e com febre alta.

– Há quanto tempo estou aqui?

– Apenas uma noite. Te encontrei no fim da tarde. Quase foi atropelada. Houve uma confusão na rodovia. Quer que eu te leve pra casa?

– Não! – Assustou-se Gerusa. – Eu vou caminhar!

– Neste caso, eu vou arranjar umas coisas pra você levar.

Gerusa penteia os cabelos com os dedos, amarra num coque alto, ajeita o roupão, apanha os chinelos e sai devagar.

– Ei! Espere! Eu disse que ia te arrumar umas coisas.

A doida se vira e se depara com um homem de roupão e sacola de pano a tiracolo.

– Aqui tem uns biscoitinhos pra gente comer no caminho – apressa o doido. –Vamos!

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Conto 2

O andarilho

(Aparecida Dias)pes-de-andarilho

 

Todas as crianças da escola tinham medo  do andarilho.  Ele andava sempre com um saco às costas que bem podia ter crianças roubadas dentro dele. Sabe-se lá se lhes cortava a cabeça e comia suas carnes, o fato é que ele impunha medo na meninada com seus trapos muito sujos, cabelos e barbas grandes e retorcidas que mais se pareciam pavios enfumaçados. Olhando de perto víamos as unhas enormes e pretas.  Não que as crianças chegassem perto para olhar, mas às vezes que ele estendia a canequinha a pedir algo para comer ou beber, todos podiam ver.  Era estranho, mas ele comia na caneca. Acho que a caneca era mais fácil de segurar e dependurar na trouxa, do que um prato.

Por onde passava, a criançada abria caminho correndo e se escondia. Na cidade, contavam muitas histórias sobre o andarilho. Algumas inventadas, outras não. Dizer que o andarilho era bravo e corria atrás de crianças podia ser verdade dependendo de como o tratavam, pois alguns moleques insultavam-no, atiravam-lhe pedras, xingavam-no com  palavrões, justamente para vê-lo  xingar também.

“De onde ele vinha?” ” Porque estava há alguns meses por esta região perto da escola?” Algumas vezes o víamos a espiar a escola na hora do recreio e ele até sorria. Mas bastava a diretora ver e já pedia para o segurança conduzi-lo para longe dali.

Certa vez, minha avó resolveu chamar o andarilho para almoçar conosco. Nós, crianças ficamos olhando de longe. E se ele resolvesse capturar uma de nós, assim que ganhasse confiança? Ele demorou um tempo na casa da minha avó. Depois que ele se foi, corremos para saber das novidades. Minha avó, serena e calma, apenas disse que ele era um homem de bem e que meu avô é quem passou mais tempo a conversar com o andarilho. Mais tarde certamente o avô ia contar tudo, tim-tim por tim-tim.

À noite pedimos a vovô para contar o que disse o homem. Meu avô alinhavou as frases de forma a entendermos que queria descobrir a família daquele coitado que se parecia perdido e se fosse do gosto dele, podia voltar sempre para almoçar.

__ E ele falou de onde é, vô?

__ Sou apenas um fotógrafo, menino. Não sou investigador, mas acho que posso ajudar. Ele está muito confuso e parece não lembrar quem é, até porque ele não conversa com ninguém e as nossas memórias se não são ativadas, deixam as lembranças por dormir, até mais do que deviam. A verdade é que de agora em diante vou ter sempre uma parte da tarde para conversar com ele.

Passou-se a ser um hábito o meu avô sentar para almoçar às três da tarde e conversar longas horas com o andarilho. Ele só pedia comida a essa hora. Ao escurecer, ficava aflito e se escondia em algum canto. Por isso o meu avô aproveitava a tarde e puxava assuntos, os mais diversos para ver se achava alguma pista. Tudo era anotado numa caderneta. As lembranças do andarilho pareciam vir sempre em relâmpagos. Certa vez ele até cantou uma música de Raul Seixas, “Viva a Sociedade Alternativa”. E ria tanto que a água que bebia na caneca lhe escorria pelos cantos da boca. Outra vez ao comer o espaguete da minha avó, se atreveu a falar de algum “tempero para o molho que o deixava divino”. Também houve uma vez que ele retirou da cabeça o pequeno chapéu e apertou contra o peito na hora da “Ave Maria”.

O vovô ficava atento a cada detalhe: nomes de rio que ele falava, de música, cidade, médico, político… e era aí a pior parte. Certa vez, meu avô ligou o rádio e disse que ia passar um programa político. O homem estremeceu e deu com os braços e saiu a resmungar palavras indecifráveis. Meu avô ficou cabreiro. Podia ser um trauma de guerra? Já tinha ouvido muitas histórias semelhantes.

Nos dias seguintes o andarilho não apareceu. Nem mesmo o víamos perto da escola. Chegamos a pensar que ele tinha ido embora de vez. Para um homem sem paradeiro, qualquer lugar é sua morada. Meu avô ficou frustrado, parecia que iam tão bem as conversas.

Já começávamos a aceitar a ideia de não mais ver o andarilho, quando ele bateu a canequinha na porta de casa. Minha avó abriu rapidamente e me pediu para telefonar para a biblioteca onde meu avô trabalhava como voluntário. Ao se reencontrarem, os dois sorriram como se fossem velhos amigos. E acho mesmo que já tinham se tornado. Neste dia meu avô mudou o rumo da conversa e, ao mandar-me às tarefas escolares, levantou um assunto delicado. “Esse meninos precisam valorizar mais a escola”. O Andarilho sorriu e disse que já tinha visto a meninada se divertindo na hora do recreio.

_Eu gostava da escola – murmurou com o olhar perdido através da janela – recordo dos corredores e da alegria que se espalhava pelo pátio.

E foi daí que meu avô foi puxando linha devagar e, a cada fala, observava a reação do senhor já mais a vontade.

A sombra da montanha já avizinhava a varanda da casa e o andarilho começou a juntar as suas coisas e despediu-se. Meu avô pediu para ele voltar, pois já não gostava de almoçar sem sua companhia. Ele fez que “sim” com a cabeça e se foi lentamente. Não tinha pressa e os sapatos rasgados pareciam não protegerem tanto os seus pés.

Assim, pouco a pouco, meu avô foi desvendando o mistério que envolvia o andarilho. Um dia soube do seu nome de batismo. Ele dizia, com dúvida, sobre uma igreja: Nossa Senhora da Glória onde recebeu o nome de Sebastiano Bertolli. Essa foi a informação que levou meu avô a descobrir um tanto de coisa sobre o andarilho. Meu avô Adelino era fotógrafo de profissão e andou pelo Brasil afora fazendo registros de festas, tragédias, paisagens, pessoas. Ele conhecia muitas igrejas e como tinha íntimas relações com jornalistas, começou a investigar. Não demorou muito e descobriu que o nome dele constava nos registros de Juiz de Fora. Era de família italiana.   Minha avó pensou que o correto seria contar para o andarilho que tinham descoberto sua identidade, mas o vovô pediu paciência. De nada adiantava contar se ele mesmo não lembrasse.

Quando o andarilho, digo, o Sebastiano (a partir desse dia todos passaram a chamá-lo pelo nome, até nós, crianças) chegou para o almoço, meu avô e minha avó foram induzindo o homem a resgatar suas lembranças. Vovô perguntou de onde, na Itália, eles eram e Sebastiano apenas cantou uma canção. Foi engraçado o jeito que ele cantou. Eu não entendi nada, mas falava de “mama mia”, algo assim. Cantou e chorou. Depois falou que a mãe cantava sempre para eles quando eram pequenos e também nas festas de família. O vovô o abraçou e disse que boas lembranças ativam a saudade. É por isso que sempre pensei que saudade é lembrança de coisa boa que passou.

Eu e meus primos íamos à casa do vovô todos os dias para ver e ouvir o andarilho e cada dia que passava ele lembrava alguma coisa. Foi assim que ficamos sabendo que ele também foi professor de Filosofia e lecionou no secundário até que foi detido por militares e levado pra longe. Sebastiano contou que ele e muitos amigos fizeram uma manifestação, ano de 1971. Ficou preso por tantos anos que perdeu a conta.  Na prisão só conheceu a tortura  e nunca mais viu um calendário:

_Pra mim todos os dias são iguais. Não sei quando colocam o nó no fio que separa dezembro de janeiro para começar a enfiar as novas contas do ano novo. Apenas sei que a lua tem quatro estações. Aprecio a mudança de fase da lua. A crescente me fascina. Ela conversa comigo. Ela tem um segredo e eu acho que ela me vai me contar em breve.

Certo dia, ele chegou sorrindo na casa do vovô:

_ Já descobri o segredo: Maria Rita é o nome dela. Era minha namorada. No dia em que eu fui detido, eu a entreguei um cordão de ouro feito pelo meu pai. Uma corrente delicada e um pingente em forma de lua crescente. A Maria Rita tinha uma marca de nascença no dorso da mão. Era a lua crescente. Foi por isso que eu pedi a meu pai para fazer o pingente. Uma lua prateada feita em ouro branco, na ponta um coração dourado, como se dormisse no colo da lua e ainda tinha três pequenos diamantes cravados na extremidade inferior da lua.

Naquele dia, ele sorria e chorava.  Ele falava pausadamente como se acariciasse cada palavra. E como se cada palavra fosse a Maria Rita.

O vovô perguntou se ele desejava ir pra casa, mas Sebastiano sorriu e mostrou a estrada:

_ Minha casa é esta e o meu destino me levará onde devo ir.

E o andarilho sumiu na curva do caminho.

 

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CONTO 3

Um conto de Natal (O Bom Velhinho  que Anunciava o Natal)

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Conto publicado no livro: Lugares e Palavras de Natal. Editora Lugar da palavra- Portugal.

ORGANIZADORES: João Carlos de Brito e Maria Eugénia.

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O Bom Velhinho  que Anunciava o Natal

Aparecida Dias

Eram contas de luz enfileiradas serpenteando a montanha coberta pela noite de dezembro. Vinham descendo. E pouco a pouco os pequenos pontos de luz iam tomando formas e rostos sob o som de hinos de louvor. O cheiro da noite fresca, das folhas lavadas pela chuva e da terra molhada trazia o tempo de renovação. Chegavam dezenas de pessoas com velas acesas nas mãos. Todos se acomodavam no pequeno terreiro em frente à nossa casa. Minha família era pequena ainda: minha mãe, meu pai, eu e duas irmãs. Eu tinha ainda uns cinco anos de idade e olhava tudo aquilo com admiração. No pequeno arraial de Senhora do Carmo, era noite quente de verão e ali, do lado de fora da casa, era agradável. Por isso as pessoas se espalhavam, contavam histórias engraçadas e riam. Ao sinal do meu avô, as pessoas se aproximavam do presépio que ocupava um canto da sala, fazia-se um grande silêncio e, então, iniciava-se um momento sublime. Todos oravam diante daquela pequena cidade-campo em miniatura, porém sagrada.

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Mais sobre a coletânea dos organizadores:

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CONTO 4

Mais um conto  de Natal

AMIGOS ESPECIAIS

CAPA Lugares e Palavras

Conto publicado no livro: Lugares e Palavras de Natal. Editora Lugar da palavra- Portugal.

ORGANIZADORES: João Carlos de Brito e Maria Eugénia.

AMIGOS ESPECIAIS

Aparecida Dias

As férias escolares se aproximavam e as crianças estavam no maior alvoroço, principalmente porque estavam esperando o Papai Noel dos Correios. Os presentes chegaram e estavam guardados pra a entrega no último dia letivo.  A turma do 3º Ano contou e recontou os presentes, conferiu nome por nome e todos estavam ali. Inclusive o presente do Gabriel, mas ele não estava na classe. Ele era assim mesmo. Faltava muito. Era sempre necessário que direção da escola enviasse carta à família solicitando a presença dos responsáveis. Mesmo assim, chegava sujo com os materiais incompletos.  Os colegas ou a professora era quem providenciava um lápis e uma borracha todos os dias. Nunca fazia o dever de casa.  Mas já era de se estranhar tamanha ausência. Mais de cinco semanas seguidas. Os colegas solicitaram ajuda aos professores e diretor para avisar ao Gabriel que o seu presente chegara.

Era um embrulho pequeno, mas era bem o que o Gabriel pedira. Cada criança fazia um pedido conforme orientação dos correios. Não podia ser presente caro, mas alguma coisa significativa e útil. Os colegas não sabiam o que o Gabriel pedira. O importante é que o presente tinha chegado.

A semana ia passando devagar. Os preparativos para a confraternização dos alunos continuavam.

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Conto 5

Madrugada na roça

Aparecida Dias

“BAAHMMM!…”

O som de um tiro corta a madrugada do mês de agosto avivando as almas que ainda estavam sonolentas. Olhares se espalham pelos lados sem saber bem aonde pousar. São horas das crianças irem para a escola.

Normalmente, nas fazendas as madrugadas são todas iguais: o galo canta e o galo do vizinho repete o canto e o outro e o outro… E assim todos os quintais despertam na madrugada com o canto do galo.  Além do galo, o rádio de pilha quebra o silencio misterioso da madrugada.  Música sertaneja, moda de viola.  O café moído na hora escorre no coador de pano.  Café preto e broa de fubá.

Ainda de madrugada, a família se coloca de pé para começar os afazeres. E lá se vai o Sr, José para o curral. Chapéu de palha, botas de borracha, trança de couro na mão.  Ele abre a porteira,  caminha em direção ao pasto e começa a aboiar. “Ôooo boi! Boi, boi…”  As vacas são chamadas carinhosamente. Entre um nome e outro é soado um assovio comprido  que o gado entende bem. As vacas vêm devagar, enfileiradas, humildes e obedientes. De um lado berra o bezerro, do outro responde a mãe.  O rádio a pilha continua  a soar as modas de viola. Parece até que o gado aprecia tal música e se acalma. O leite espumante enche o balde que transborda.

Na casa do vaqueiro, as filhas mais velhas arrumam as crianças para irem à escola. Os filhos mais velhos deixam a escola assim que terminam as quatro séries do Primário.  Já sabem ler, escrever e fazer as quatro operações. É  hora de ajudar na lavoura. Maria, a mais velha, fica brava:

__ Acorda Liu!  Você está atrasado. Olha que o Tunico já tá pronto!  Ângela, já pegou os cadernos? A tarefa tá pronta?

__ Eu falei que fiz, não falei?  Não sei pra quê isso, idiotice!

__ Eu tomei sua leitura ontem, e você está tropeçando muito. Não consegue ler direito. __ Ralha Cida.

__ Eu sei ler, sim. Só não quis ler pra você. __ Responde Ângela com deboche.

Tunico calmamente se arruma, come um pedaço de broa e toma o café com leite. Pega a sacolinha com o caderno e senta na cadeira, com sono ainda, espera.

Liu continua da cama. Os irmãos não podem o esperar, senão perderão o ônibus.

O galo canta marcando a hora. As crianças saem, pois já sabem que são cinco horas. É a segunda vez que o galo canta desde que levantaram. Só Liu fica. Está distraído brincando com suas piorrinhas.

__ Deixa ele, Maria,  ele só tem  seis anos. É muito cedo. Não tem problema faltar uma vez ou outra.

A filharada do vaqueiro José é uma escadinha:  Tunico com oito anos, Ângela com dez anos. As outras irmãs, tinham doze , quatorze e dezesseis anos.  A mãe está de resguardo. Deitada ainda, cuida do caçula. Família numerosa é sinal de boa colheita.  Todos os filhos ajudam na lavoura. Assim que os pequenos saírem para a escola os mais velhos  ajudam na ordenha e depois  no plantio da roça.

Quando o rádio dá cinco horas e meia, Liu levanta da cama, veste a primeira camisa que vê, calca o chinelo, sem mesmo pentear os cabelos e sai na disparada. Com a pressa que estava pega um atalho e corre feito um raio. Ele é miudinho, magrinho, mas muito esperto. Fala muito, corre muito e fica brabo quando o provocam. Não dá nem tempo de segurar o moleque, ele sai na disparada.

A tarefa matinal segue tranquila, vacas mochas cabisbaixas, música no rádio, bezerros berrando ansiosos pela mãe.

E é só abrir a cancela, falar duas ou três vezes o nome da vaca mãe, que o bezerro filho vem ao encontro. Cuidadosamente ele é laçado. Deixa-se que mame um pouco até que o leite desça e então ele é amarrado bem próximo da mãe de modo que ela possa acaricia-lo enquanto é ordenhada.

No curral é assim. Um ritual. Primeiro ordenha-se as vacas com crias novas, depois as vacas com as crias mais velhas. É que os bezerrinhos quanto mais novos, mais eles são ansiosos pela mãe  e berram tanto, tanto… Aos poucos vão aprendendo o ritual de esperar a sua vez. Eles aprendem que quando chamar pelo nome da mãe será a vez deles saírem para o encontro.

A madrugada é calma, o som do rádio é calmo, as vacas são calmas e obedientes.

De repente a calmaria é interrompida com uns gritos desesperados.

__Socorro! Pai, acuda !  Um lobo! __ Grita Ângela

Com uma rapidez, o vaqueiro José, se levanta. A banqueta rola pelo chão. Ele coloca o balde na mesa que desequilibra derramando um tanto de leite. O vaqueiro vai ao encontro dos meninos, preocupado, pois nessa época o bicho tá atacado.

__ Lá no morro! Ele cercou a gente…__ofegava Ângela __ Não deu pra passar. Ele é grande… e brabo.

__ Santo Deus, __ Cida leva as mãos à cabeça.__ Liu foi sozinho atrasado.  Vocês não encontraram com ele?

__ Não! Por onde ele passou? __ Tunico pergunta preocupado.

__ Pelo atalho! E ele não sabe do lobo.

O vaqueiro José em dois passos entra em casa, pega uma espingarda e corre em direção onde está o filho desprotegido.

Liu, sem nada saber, vai apressadinho, passos miúdos e ligeiros. O chinelinho arrasta na poeira da estrada. Ainda está escuro. Apressado ele começa a sentir um cheiro estranho. “Hum… Esse cheiro é conhecido.  Já senti antes”. Ele pensa.

Para no meio do caminho, olha em volta. O cheiro fica mais forte. Agora é possível ouvir passos no capim seco. Os passos se aproximam, vem do lado dos coqueiros. O cheiro fica forte, muito forte. Liu lembra de onde sentiu tal cheiro: “Foi no pasto. Eu tinha ido buscar o gado e vi o bicho lá junto das vacas.” Ele forçava a memória.

__ Esse cheiro… eu sei, eu sei: É loooooobo!

Liu corre de volta pra casa. Ele corre desesperadamente. É rápido feito um raio  e corre por uns quinhentos metros. Liu é rápido, mas é uma criança de apenas seis anos e suas pernas começam a fraquejar. Ele para e tenta se esconder em meio a uma parede de tijolos e  algumas manilhas que há ao lado da estrada.  “Aqui posso descansar. Ele não vai me ver.” Pensou. Mas em seguida muda de ideia: “Ele vai me achar sim, ele me segue pelo cheiro. É mês de agosto. O lobo ataca nessa época. Vou virar comida de lobo.”

O lobo corre também, segue a criança pequena que mais parece um bichinho, uma presa fácil.

O vaqueiro José continua a correr, mas o lobo, ao ver o vaqueiro, muda a direção. O vaqueiro apruma a arama e dá um tiro: “BAAHMMM!…”, mas o lobo se embrenha na floresta.

Liu chega em casa. Não tem cor, não tem voz, não tem pernas para caminhar. Ele é só um coraçãozinho que bate forte e acelerado. É tomado no colo pelas irmãs até se acalmar.

Os vizinhos curiosos já sabem: “foi tiro!”

Após recuperar do susto, Liu declara seus conhecimentos acerca dos lobos:

__ Lobo não come menino mijado. Eu fiz xixi na cama!

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Conto 6

Assombração na lagoa

(Aparecida Dias)

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Foram chamar o padre para benzer um trecho de dois mil metros da rodovia que contorna a barragem Fábrica Velha. Esmurraram dezenas de vezes a porta da casa paroquial, sem intervalo de tempo. O pobre padre nem conseguiu trocar o camisolão e foi, arrastando os chinelos, atender ao chamado.

_ Quem me acorda às duas da madrugada? Será para dar alguma extrema unção? Quem é o filho de Deus que não pode esperar o dia raiar para morrer?

_ Sr. padre! São almas d’outro mundo! Muitas! Estão sobre as águas da represa em procissão. Se contar ninguém acredita. Venha conosco e o Sr. verá.  Não dá pra passar na rodovia. Elas saem das águas e caminham na superfície e depois pelas vias e sobre os carros e passam por dentro dos automóveis de velas na mão. Seguem um padre-alma que comanda as orações e cânticos de louvor a Nossa Senhora.

_ Meu filho, o Sr. Está sob efeito de algum alucinógeno?

_ Isso é até ofensa. Eu nunca belo ou uso qualquer tipo de droga. Sou um cristão, católico e temente a Deus. Se vim a procura do Sr. é porque o caso é sério. Há um congestionamento na estrada, crianças chorando, mulheres desmaiando…

O padre pediu desculpas, vestiu uma batina nova, pegou a água benta, um crucifixo e voltou a atender ao cidadão que já caminhava de um lado para outro a espera do homem sagrado. Em poucos minutos chegaram à barragem Fábrica Velha.

A procissão continuava com velas e cânticos. O padre fez o sinal da cruz e começou a acompanhar a fila interminável de almas. O motorista seguiu o padre.

_ O Sr. não vai entrar na água, né? Pêlamor de Deus! É só pra benzer. Olha, faz assim: joga água benta e pede pra esse bando de almas liberar o trânsito e nunca mais voltar a incomodar os cristãos.

_ Não venha ensinar o Padre-Nosso ao vigário! Eu sei bem o que fazer nessa hora. Já tirei alma penada até de igreja.

O padre fez uma reza em latim e aspergiu água benta por todos os lados. Aos poucos as almas foram entrando na água e submergindo uma a uma. O padre fez uma reverência, como se cumprimentasse o seu colega de fé e aspergiu um pouco de água benta sobre a alma santa que lhe sorriu e também afundou na água. Depois o padre foi em cada automóvel, aspergiu água benta e orou. Por fim,  disse que seguissem em paz e na fé de Cristo, mas que, se possível, deixassem uma ajuda para a reforma do telhado da capela de Nossa Senhora do Rosário.

Na madrugada seguinte, tiveram de chamar o pastor. Era outro grupo de almas que manifestavam a sua fé sobre as águas. Hinos de louvor e aleluias eram cantados. Um líder religioso à frente aclamava ao Senhor e todos bradavam fervorosamente “Aleluias”.

O pastor exorcizou os demônios com água benta, Suplicou ao Senhor Jesus que acompanhassem os mortos para o lugar de origem e que acompanhassem também os vivos que deviam seguir a viagem. Da mesma forma, as almas, afundaram nas águas como se perdessem a capacidade de flutuar sobre a enorme lagoa. O Pastor abençoou os carros, a começar pelo último, até chegar ao início da fila. E para cada motorista, suplicava, aos céus, o livramento dos demônios, mas esclarecia que a graça seria alcançada mediante uma generosa contribuição.

As águas ficaram tranquilas até a noite seguinte. Mas à meia noite, todos os tambores rufaram no fundo, bem no fundo e à flor d’água apareceram grandes rodas de manifestantes do candomblé e seus Orixás, entoavam cantigas e dançavam sobre as águas. Tochas de fogo ornavam a barragem e os homens negros vestidos de brando saltavam para os carros que tentavam desviar, batiam e engavetavam-se nos outros automóveis e não davam partida, mesmo que por súplica divina.

Não tardou a chegar um Pai de Santo, atendendo a um chamado de algum viajante que ficara preso na rodovia.  O Sr., de roupas brancas, contas coloridas trançadas no peito e turbante na cabeça, estendeu uma toalha branca e voz cansada pediu aos viajantes que enchessem uma pequena barca branca com alguns objetos e alimentos e fizeram uma oferenda. A pequena barca foi colocada na água com velas coloridas, flores, doces, vinhos e até uma garrafa de cachaça que uma senhora levava.  Afastava-se a barca e as velas tornavam em pequenos pontos de luz cada vez menores. O Pai de Santo falou algumas palavras numa língua incomum e os tambores silenciaram. Em seguida todas as almas se apagaram com os primeiros raios de sol e o silêncio retornou em Fábrica Velha durante o dia.

Sumiram todas as almas. Não mais rezavam, nem cantavam ou dançavam sobre as águas assombrando aos viajantes. As águas permaneciam calmas na superfície. Apenas algumas bolhas, de coloração escura, bem barrenta, subia lentamente e “ploc” manchava o cristalino da água. Por semanas, esse era o único fenômeno observado.

No período chuvoso, já aproximando o Natal, um rugido forte foi ouvido por toda a redondeza de Fábrica Velha. “Um urro comprido, como um choro de um monstro”, diziam uns. “É o vento cortando a rocha” diziam outros. “Parece o meu engenho de madeira pedindo graxa” engraçou um fazendeiro. “Pode ser que as almas estão presas detrás de uma enorme cancela e estão forçando para saírem” arriscou um dos curiosos.

Muitas pessoas se aglomeravam em torno da barragem para fotografar, gravar e tentar descobrir o que acontecia no local. Os rugidos continuavam e iam aumentando o volume dia a dia.  Jornalistas tentavam fazer vídeos, mas não se ouvia nada ao exibir as gravações.

Passou o Natal e poucas pessoas arriscavam a transitar por ali à noite. As pessoas foram se acostumando aos ruídos, os curiosos foram embora. Os repórteres também. Os pescadores retornaram, mas não apanhavam peixes. Passavam horas a lançar o anzol e a puxar linha, mas nada!

No dia trinta e um de dezembro, quando os ponteiros contavam os segundos para o ano novo, as águas da barragem se agitaram em ondas gigantescas. Inundaram a rodovia. Carros foram jogados para fora da pista. Outros puxados pela enorme corrente d’água que se formava. Uma serpente gigante surgiu com olhos arregalados. Emergia e submergia freneticamente e se contorcendo como se não coubesse na bacia em que estava. Seu rugido foi ouvido a mais de 30 km do local. Em toda a extensão da barragem, as águas se agitavam e enlameavam. O mostro chispava fogos pelos olhos. A língua avermelhada largava uma pasta gosmenta toda vez que ela abria a boca. Enormes presas surgiam na mandíbula da serpente a jorrar um líquido amarelo.

Nessa noite muitas famílias perderam seus entes queridos antes da festa de Reveillon. A rodovia se abrira com fendas de mais de dez metros de largura e tudo se cobriu de água. Ninguém mais pôde passar por ali. A barragem passou a ser morada da cobra grande.

A população da cidade fez fila, na prefeitura, implorando ao prefeito uma solução, pois os filhos não mais estudavam à noite. Médico não saía para atender paciente que morava do outro lado da barragem, até o padre não podia passar por lá para dar extrema unção a um moribundo que agonizava pra morrer e morava bem próximo á barragem de Fábrica Velha.

O prefeito foi à capital falar com o presidente da república e pedir para enviar o exército e extinguir o monstro. Não conseguiu nada. Também não explicou aos seus eleitores como foi o encontro com a autoridade máxima. O seu assessor é quem contou, aos mais chegados, que a história foi motivo de risos. Ninguém acreditou. Na verdade, o presidente nem mesmo o recebeu.

Diante de tamanho desconforto, o prefeito concordou com o Estado. Era melhor continuar com as atividades de sempre, afinal, a cobra grande sempre existiu. Um dia ela voltará a dormir.

 

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