Tempo digital

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Horas apressadas, misturadas

à multidão.

Passos

Buzinas

corridas em contramão.

Mensagens reduzidas ao toque do polegar.

O metrô

O ônibus

O voo que acabou de sair e já está a chegar.

O relógio sem ponteiros

e as horas a deslizarem no silêncio digital.

Já é tempo. Não demora

Há um mundo sem horas.

Pernas

Bolsas

Smartphones.

Rostos que não se olham

E não se lembram com quem tomaram o café da manhã.

O hotsite  anuncia o novo lema da campanha

A reunião aconteceu por webconferência.

E despediram um funcionário sem a menor decência

por e-mail.

Passam passos

sem receio

a correr pra ter mais tempo

de fazer não se sabe o quê.

 

Amores líquidos desfazem-se

Não mais é lembrado

quem amou

ou se amou.

Alguém disse “Eu te amo”?

Se disse, também já passou.

E o tempo a cobrar

Que já passou

Que já p a s s o u…

Que já parou!

Aparecida Dias

 

 

Lágrimas

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Toquei o teu rosto n’água refletido

e ele desfez-se em líquidas ondas.

As carícias que eu te fiz

em outras ondas repetidas

transformaram-se.

E sentidas por não te abraçar

Choraram com saudades de ti.

 

Em ondas chorosas, meu coração velejou

a buscar os teus olhos que n’água ficaram.

A cada lágrima que caía

nova onda fazia-se

e embaraçava o meu olhar

que tua imagem buscava.

E por mais que eu insistia

Menos a tua face eu  via.

 

Mergulhei nas frias águas

A procura do teu calor

Serena pousei-me no fundo azul

Sob a líquida cortina

que te escondia de mim.

N’ águas mansas te encontrei:

Teu rosto roçou o meu

e a sorrir, eu te beijei.

 

Aparecida Dias